sábado, 30 de abril de 2011

Quando a minha irmã e eu eramos pequenas, sempre que faltava energia na vila do "não tinha" onde a gente morava. Na verdade a vila se chamava Extrema. Eu que chamo de "não tinha" porque não tinha nada. Não tinha rua asfaltada, não tinha sameamento básico, não tinha praça, não tinha lugares pra passear, não tinha ilunação pública, dava pra contar nos dedos da mão do Lula as famílias que tinha carro próprio... Acho que esse nome Extrema, deve ser de EXTREMA PRECARIEDADE.
Então, a gente pedia pra mamãe contar, nas noites de apagão, a história dos dois irmãos: um doido e um normal. Ela se sentava na cama e nós duas deitava do lado dela. As vezes ela colocava a rede no quarto e ficava deitada balançando e os armadores da rede faziam um barulhinho repetitivo mas que não incomodava. Ela deixava só uma vela acesa formando sombras engraçadas quando o ventinho que entreva pelas frestas das paredes de madeira da nossa casa e balançava o pavil da vela.
Foram tantas as vezes que ela contou essa história que eu consigo lembrar de cada detalhe.
E se eu pedir pra ela me contar de novo pela milésima vez, vou rir de todas as partes engraçadas como se fosse a primeira vez.

Por que eu to escrevendo sobre isso?

Porque na aula de inglês teve uma lição sobre uma avó contadora de histórias. Os netos estavam sentados ao redor dela e ela contava a história do cavalo Pégasus.
Eu só tenho meu avô materno. Não gosto dele por vários motivos que não importa o que me digam eu só consigo trata-lo como avô sem ser só por educação. E se achar que é frescura minha, vou falar um dos motivos. Ele não teve a consideração de guardar nem ao menos uma foto da minha avó pra minha mãe saber como ela era... Isso me revolta demais. Não conheci meus avós paternos. E o pouco que sei sobre eles é o que minha mãe conta quando eu pergunto. Meu pai nunca me falou sobre eles porque depois que ele ficou "grandinho" se desintendeu com a familia e foi morar sozinho. Vivo esquecendo o nomes deles. Fiquei até sem jeito de responder "I don't remember" quando a professora perguntou "What is the name of your grandfather?".
Não da pra explicar direito como é crescer tendo ao seu lado apenas, seu pai, sua mãe e sua irmã como parentes, sabe? As vezes tenho curiosidade de saber como eu seria se tivesse crescido junto dos meus primos, dos meus tios, ter conhecido meus avós partenos, passar pela fase de pagação de mico quando os parentes se reunem. Eu vejo as pessoas que convivem com a parentada toda por perto, os que tem ainda bisavós. Fico tentando entender se o amor que eles sentem pelos outros parentes é igual ou parecido com o que sentem pelos pais. Ou se esse amor é o mesmo que se sente pelos amigos.
Por mais que eu tente, não consigo me sentir avontade e confiança de partilhar... o que mesmo que se partilha entre com os parentes?
Enfim, eu só queria colocar isso pra fora da cabeça porque tava me incomodando desde da aula de inglês da quarta-feira passada. Os outros alunos da minha turma, todos tinham respostas legais sobre os avós e eu só respondia a mesma.
É uma coisa boba. Nem sei porque me incomodou. Eu até dou risada quando lembro que descobri por acaso que o nome do meu tio Cláudio na verdade é Claudionor. Isso foi quando eu comecei a entrar no chat do humortadela e conheci um menino que se chamava Claudionor. Ele disse que odiava o nome e nunca tinha conhecido ninguém com o mesmo. Então, num belo dia a mamãe tava me contando umas coisas do meu tio e eu falei que tinha conhecido um menino com o nome parecido e quando eu falei o nome, ela me falou que os nomes eram iguais.

Legal, to me sentindo melhor agora.

As musiquinhas de hoje são.... SHINE A LIGHT, THERE SHE GOES e PERFECT SITUATION

segunda-feira, 4 de abril de 2011

=/

Não lembro quando nos conhecemos. Não lembro quando nossas mães se conheceram. Não lembro quando foi a primeira vez que passamos mais de vinte e quatro horas juntos. Não quando foi a noite em que minha mãe fez você dormir usando fraldas porque você fazia xixi na cama mesmo tendo mais de dez anos. Ok. So péssima com datas. Sempre assumi.
Me deu vontade de escrever sobre você, sabia? Não vai ser na ordem em que as coisas aconteceram. Vou contá-las na ordem que vou lembrando.
Você lembra daquele dia em que eu fiquei muito doente e você saiu no sol quente pra comprar sorvete pra mim? O sorvete chegou derretido. Consegui comer só um pouquinho.
Como era o nome do seu cavalo? Ou era uma égua? Lembro que era branca. Você me convenceu a andar nela junto com você. Me fez odiar cavalos mais ainda depois que terminamos o passeio, porque voce falou que cavalos tem carrapatos no pelo e eu achei um andando na minha perna. POR QUE NÃO ME FALOU ISSO ANTES DE EU SUBIR NAQUELE ANIMAL?
Lembra da primeira vez que você, sua mãe, sua irmão e o seu irmão dormiram na minha casa? Tava chuvendo muito e não tinha como vocês voltarem pro sitio. Sua mãe queria que você dormisse na rede porque você fazia xixi na cama. Minha mãe não aceitou a idéia e fez você usar uma fralda. Nossa, como eu ri naquela noite.
E quando famos passar um feriado no seu sitio? Foi a noite mais linda que eu já vi. Não tinha energia na sua casa e isso fez com que a luz da lua brilhasse ainda mais. Dava pra ver o pasto, o gado, os pés de tangerina, as árvores na mata fechada, tudo. E como tinha estrelas! Ficou você, sua irmã Tatiane, seu irmãozinho Diego, a Ada e eu dando voltas de bicicleta circulando a sua casa enquanto nossos pais conversavam na cozinha e tomavam cerveja. Ninguém contou quantas voltas foram. Realmente aquela lua estava linda. Quando fomos dormir passava das duas da madrugada. Nossas mães arrumando as camas e colocando mosqueteiros e a gente só querendo saber de brincar.
Ainda dou risada quando lembro do tamanho das suas orelhas. E seu cabelo cortado quase raspado que espetava a mão? Parecei até que ia entrar pro exército. Você implicava com o Diego, mas era igual a ele. Na verdade ele era você em uma versão menor.
Sua letra tava muito engraçada no cartão de despedida que sua mãe me entregou quando estavamos arrumando a mudança. Ela me contou que você falou que ia ser um fazendeiro rico pra casar comigo e eu falei que nunca iria casar com você. Eu estava certa, não era?
O destino é incrível. As vezes muda e nem se quer notamos.
Se foi assim é porque era pra ser assim. E não tem como mudar.
Não da pra dizer que perdemos o contato um com o outro. Sua mãe uma ou duas vezes por ano ligava pra minha mãe. Quando ela ligou ha mais de três anos e contou que o que aconteceu, eu não acreditei.
As dores, seus ataques, sua dificuldade em estudar, sua falta de atenção, seus ataques de raiva, não passavam de um tumor no seu cerebro e ninguém sabia.
Por que não você não foi no médico quando a minha mãe quis levar você em Rio Branco? Por que foi mais fácil acritarem que o que você tinha era frescura? Chegaram até a dizer que era encosto.
Acho que nunca vou perguntar pra sua mãe por que ela só ligou contar que você faleceu dois meses depois. Talvez ela achou melhor assim.
Douglas, desculpa não lembrar a data do seu aniversário e nem mesmo seu nome completo. Desculpa passar tanto sem pra falar sobre nossa amizade. Eramos apenas crianças. E crianças acreditam que tudo dura pra sempre.