Não lembro quando nos conhecemos. Não lembro quando nossas mães se conheceram. Não lembro quando foi a primeira vez que passamos mais de vinte e quatro horas juntos. Não quando foi a noite em que minha mãe fez você dormir usando fraldas porque você fazia xixi na cama mesmo tendo mais de dez anos. Ok. So péssima com datas. Sempre assumi.
Me deu vontade de escrever sobre você, sabia? Não vai ser na ordem em que as coisas aconteceram. Vou contá-las na ordem que vou lembrando.
Você lembra daquele dia em que eu fiquei muito doente e você saiu no sol quente pra comprar sorvete pra mim? O sorvete chegou derretido. Consegui comer só um pouquinho.
Como era o nome do seu cavalo? Ou era uma égua? Lembro que era branca. Você me convenceu a andar nela junto com você. Me fez odiar cavalos mais ainda depois que terminamos o passeio, porque voce falou que cavalos tem carrapatos no pelo e eu achei um andando na minha perna. POR QUE NÃO ME FALOU ISSO ANTES DE EU SUBIR NAQUELE ANIMAL?
Lembra da primeira vez que você, sua mãe, sua irmão e o seu irmão dormiram na minha casa? Tava chuvendo muito e não tinha como vocês voltarem pro sitio. Sua mãe queria que você dormisse na rede porque você fazia xixi na cama. Minha mãe não aceitou a idéia e fez você usar uma fralda. Nossa, como eu ri naquela noite.
E quando famos passar um feriado no seu sitio? Foi a noite mais linda que eu já vi. Não tinha energia na sua casa e isso fez com que a luz da lua brilhasse ainda mais. Dava pra ver o pasto, o gado, os pés de tangerina, as árvores na mata fechada, tudo. E como tinha estrelas! Ficou você, sua irmã Tatiane, seu irmãozinho Diego, a Ada e eu dando voltas de bicicleta circulando a sua casa enquanto nossos pais conversavam na cozinha e tomavam cerveja. Ninguém contou quantas voltas foram. Realmente aquela lua estava linda. Quando fomos dormir passava das duas da madrugada. Nossas mães arrumando as camas e colocando mosqueteiros e a gente só querendo saber de brincar.
Ainda dou risada quando lembro do tamanho das suas orelhas. E seu cabelo cortado quase raspado que espetava a mão? Parecei até que ia entrar pro exército. Você implicava com o Diego, mas era igual a ele. Na verdade ele era você em uma versão menor.
Sua letra tava muito engraçada no cartão de despedida que sua mãe me entregou quando estavamos arrumando a mudança. Ela me contou que você falou que ia ser um fazendeiro rico pra casar comigo e eu falei que nunca iria casar com você. Eu estava certa, não era?
O destino é incrível. As vezes muda e nem se quer notamos.
Se foi assim é porque era pra ser assim. E não tem como mudar.
Não da pra dizer que perdemos o contato um com o outro. Sua mãe uma ou duas vezes por ano ligava pra minha mãe. Quando ela ligou ha mais de três anos e contou que o que aconteceu, eu não acreditei.
As dores, seus ataques, sua dificuldade em estudar, sua falta de atenção, seus ataques de raiva, não passavam de um tumor no seu cerebro e ninguém sabia.
Por que não você não foi no médico quando a minha mãe quis levar você em Rio Branco? Por que foi mais fácil acritarem que o que você tinha era frescura? Chegaram até a dizer que era encosto.
Acho que nunca vou perguntar pra sua mãe por que ela só ligou contar que você faleceu dois meses depois. Talvez ela achou melhor assim.
Douglas, desculpa não lembrar a data do seu aniversário e nem mesmo seu nome completo. Desculpa passar tanto sem pra falar sobre nossa amizade. Eramos apenas crianças. E crianças acreditam que tudo dura pra sempre.
e dura. mesmo que na memória...
ResponderExcluir